Pagamento pelo celular ainda é incipiente
Tainá Bispo e Talita Moreira
11/06/2008
Fonte Emissora: Valor Econômico
Parecia uma combinação infalível. O telefone móvel está nas mãos de mais de cem milhões de brasileiros, tem alcance maior que o da rede bancária, permite o envio e a recepção de dados on-line e pode ser levado a qualquer parte. Mas mesmo com o celular reunindo todas essas características, as iniciativas das operadoras de telefonia e instituições financeiras para transformá-lo num meio de pagamento em larga escala surtiram efeitos limitados até agora. O consumidor, ao que parece, não está muito interessado no assunto.
Apenas 2% dos brasileiros utilizam o celular ou os organizadores pessoais com acesso à internet (do tipo Palm) para fazer compras, pagar contas ou efetuar transações bancárias. A maioria (67%) sequer considera a possibilidade de adotar esse recurso. Os dados fazem parte de um levantamento que a Unisys divulgará amanhã no Ciab, evento sobre tecnologia bancária que acontece nesta semana, em São Paulo.
"(O mercado) vai crescer, não temos dúvida disso. Mas não sabemos quanto tempo vai levar", afirma o presidente da Unisys no Brasil, Paulo Bonucci. "Existe uma grande oportunidade de crescimento, já que 11% dos entrevistados consideram utilizar essa ferramenta."
Para isso, as empresas envolvidas - operadoras de telefonia, instituições financeiras e redes varejistas - terão que convencer os usuários de que é seguro transformar o telefone móvel em cartão de crédito. Essa é a principal barreira, diz Bonucci.
A pesquisa mostra que 39% dos brasileiros consideram o celular um meio de pagamento "não muito seguro" e outros 43% avaliam que ele "não é seguro".
O levantamento foi feito com 1,5 mil pessoas, com idade entre 18 e 60 anos, nas principais regiões metropolitanas do país. É a primeira vez que a Unisys encomenda uma pesquisa sobre o assunto no Brasil, que passará a ser divulgada semestralmente.
A baixa adesão não é exclusividade do mercado brasileiro. O estudo da Unisys mostra que a rejeição ao uso dos telefones móveis é grande também em outros países. "Os números são pouco significativos no mundo todo. Aparentemente, a percepção dos usuários é de que as transações via celular agregam pouco valor em relação a meios tradicionais, como cartões de crédito", avalia Victor Koss, vice-presidente da consultoria Booz & Company (antiga Booz Allen Hamilton), que fará hoje uma apresentação no Ciab.
Segundo Koss, especialista em sistemas bancários, a rede de estabelecimentos comerciais preparada para fechar transações por meio das redes móveis ainda é muito pequena. Por enquanto, nem bancos, nem operadoras de telefonia ou varejistas dispuseram-se a investir pesadamente para disseminar a tecnologia.
Outra dificuldade é que os aparelhos de celular não têm um sistema operacional dominante, como é o caso do Windows, da Microsoft, nos computadores pessoais. "Isso cria barreiras ao desenvolvimento de software", afirma Koss.
Atualmente, os modelos de transação comercial variam bastante. Alguns, mais simples, requerem o envio de mensagens de texto para confirmar a operação. Outros são baseados no uso de sistemas que reconhecem etiquetas eletrônicas, como os existentes no Japão.
Mais um problema é o fato de que as operações por meio dos celulares geralmente acarretam custos, nem que seja pelo tráfego de dados na rede de telefonia. "Por que as pessoas vão pagar para fazer algo que elas podem efetuar de graça?", questiona o consultor.
Talvez essa seja uma das razões que explicam por que o Japão é um dos mercados mais bem-sucedidos no uso de pagamentos pelo celular, afirma Koss. Naquele país, cobram-se taxas em boa parte das transações financeiras eletrônicas, independentemente do meio. "Os consumidores já estão acostumados. Em outros países, as pessoas não aceitam isso", avalia.
A conclusão do consultor é de que esse meio de pagamentos desenvolveu-se apenas em mercados onde há condições muito peculiares. O Japão é um caso. Outro exemplo são as Filipinas, onde o envio de mensagens de texto é gratuito. Em alguns países africanos, como o Quênia, os celulares tornaram-se substitutos de uma rede bancária deficiente e as operadoras tiveram incentivo do governo para implantar a tecnologia.
No Brasil, as iniciativas ainda são isoladas e há indefinições sobre esse mercado. "Faltam alguns passos importantes", diz Bonucci, da Unisys. Um dos pontos principais é a regulamentação, que ainda não existe. Também é preciso criar um modelo de negócios e identificar quem irá liderar o processo: instituições financeiras, operadoras ou empresas de tecnologia, afirma o executivo.
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